Cheiro de fumaça. Cheiro de chuva, de insetos. O tempo em que tudo era eterno está de volta, se espalhando pela casa. Rostos fora de foco, objetos coloridos espalhados pelo chão. Era bom. Os dias costumavam vir repletos de alegria. Em que parte do caminho eu a deixei cair? Será que ainda está guardada em algum bolso que não uso mais? O frio é o mesmo. O rosto no espelho, não. Eu ainda reconheço alguns traços e cicatrizes. Mas, definitivamente, o amargo desse olhar não existia no outro rosto. É o mesmo espelho, com outro olhar. Quem achou aquilo que eu tinha e perdi? Aquilo que eu não sei descrever. Aquilo que nunca vi, mas sei que já tive. Em que "Achados e perdidos" eu posso me encontrar?
sábado, 9 de abril de 2011
quarta-feira, 16 de março de 2011
Doente
Certa vez houve um homem. Não me lembro de seu rosto, nem de seu nome. Não sei onde viveu, mas viveu. Um dia, este homem sentiu-se diferente. Nunca experimentara aquela sensação. Suas mãos estavam frias, suadas. Sentia-se triste e feliz, bonito e feio, tudo ao mesmo tempo. Dentro de seu peito, um misto de angústia, dor, saudade, alegria e medo. Sofria ele de algum mal? Decidiu procurar um médico. O homem de roupa branca e testa enrugada o examinou por completo. Não encontrou nada. O homem decidiu, então, ir a um psiquiatra. Se não era mal físico, na certa era psicológico. O homem de terno preto e bloco de anotações ouviu, observou, ponderou e anotou. Mas a nenhuma conclusão chegou. Ainda mais angustiado, o homem se viu sem saída. Sofria de algum mal, mas não sabia qual. Pensou em se matar, em surtar, em cozinhar, em cantar, em se render, roubar, matar. Mas nada ia adiantar. Aquelas sensações todas ainda enchiam o seu peito. Decidiu, então, contar a verdade a ela. A bela jovem que com ele brincara, estudara, crescera. E ao vê-la, o homem descobriu: era ela a causa daquilo tudo. E ele se examinou. Diagnóstico: paixão.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Desarmado
Desarmado, desalmado e desamado. Esse sou eu, aquele que você soltou no ar, ensinou a voar e deixou cair. Eu quebrei. Era fraco e nem sabia. Você sabia? Dei minha luz pra você. Fiquei sem nada, preso ao chão, no escuro. É frio onde você me deixou. Aqui falta você. É vazio o peito. O meu. Sou oco sem teu perfume. Meu coração só pulsa, não sente. Na casa, só paredes. E as lembranças são só lembranças. Desanimado e desabando. Ainda estou aqui, desarmado.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Hoje eu carrego um elefante nas costas.
Uma história, um sonho e uma mentira.
Eu ando devagar,
eu suspiro dolorosamente.
Eu sinto dor, amor, horror a cada passo.
Eu tenho o semblante carregado.
Sou a única criatura em preto e branco
nesse mar de infinitas cores em neon.
Hoje eu sou medo, alívio, decepção.
Sou a ferida de quem saltou ao desconhecido,
de quem pulou do penhasco.
Hoje eu sou ternura, tristeza, resignação.
Muito prazer,
eu sou a Desilusão.
Uma história, um sonho e uma mentira.
Eu ando devagar,
eu suspiro dolorosamente.
Eu sinto dor, amor, horror a cada passo.
Eu tenho o semblante carregado.
Sou a única criatura em preto e branco
nesse mar de infinitas cores em neon.
Hoje eu sou medo, alívio, decepção.
Sou a ferida de quem saltou ao desconhecido,
de quem pulou do penhasco.
Hoje eu sou ternura, tristeza, resignação.
Muito prazer,
eu sou a Desilusão.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Horizonte ou Com a chuva pesando em minhas costas
Chove muito desde cedo. Desde cedo eu estou andando, na chuva. Eu não tenho frio. Apenas quero seguir em frente, não olhar pra trás. Quero deixar tudo o que me aflinge. Quero me desfazer de todos os meus problemas. Metade dos meus problemas foram causados por você. Mas sem você eu teria o dobro deles. Será que eu te amo mais que odeio? Não sei. Não quero pensar. Só quero andar. Sempre em frente. Só o horizonte me interessa. Está escuro. No caminho eu vejo um vulto. Não sei ao certo se é uma pessoa. Não me importa. E eu sigo em frente. Com a chuva pesando em minhas costas. A chuva é, agora, a minha fiel companheira. E eu ando mais. Avante, sem temores, sem receios, sem ninguém. Caminho mais devagar agora. Eu reconheço esse lugar. Estou de volta. Estou em casa. Onde você, que é causa dos meus problemas, me espera. Pra resolver todos eles.
sábado, 29 de janeiro de 2011
Luzes acesas.
Janelas abertas.
Um copo vazio.
Fumaça de cigarro.
Cinzas pelo chão.
E uma dor que se espalha pelo ar.
Como ele consegue dormir tão docemente?
Os ruídos da vida noturna porta afora.
As rachaduras nas paredes.
O quadro fora do lugar.
Aquilo costumava ser bom.
Um dia, apenas um.
O desenho das estrelas, a dança das folhas.
A chuva fina que cai.
O tempo esfriou o tempo.
E ele dorme.
Os livros jogados.
Palavras espalhadas pela mente, pela casa, pelo ar.
Nada parece mais fazer sentido.
O mundo desabou sobre a cabeça dele.
E ninguém viu.
Ao lado da cama, qualquer coisa escrita num papel.
Ao lado das estrelas, a lua.
Ao lado da vida, a morte.
Ao lado do homem que dorme, dor.
Escapa das veias.
Escorre pelo chão, no tapete, nele.
E ele dorme, para não mais despertar.
Janelas abertas.
Um copo vazio.
Fumaça de cigarro.
Cinzas pelo chão.
E uma dor que se espalha pelo ar.
Como ele consegue dormir tão docemente?
Os ruídos da vida noturna porta afora.
As rachaduras nas paredes.
O quadro fora do lugar.
Aquilo costumava ser bom.
Um dia, apenas um.
O desenho das estrelas, a dança das folhas.
A chuva fina que cai.
O tempo esfriou o tempo.
E ele dorme.
Os livros jogados.
Palavras espalhadas pela mente, pela casa, pelo ar.
Nada parece mais fazer sentido.
O mundo desabou sobre a cabeça dele.
E ninguém viu.
Ao lado da cama, qualquer coisa escrita num papel.
Ao lado das estrelas, a lua.
Ao lado da vida, a morte.
Ao lado do homem que dorme, dor.
Escapa das veias.
Escorre pelo chão, no tapete, nele.
E ele dorme, para não mais despertar.
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