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sábado, 25 de junho de 2011

O homem que tinha escritos na testa todos os seus sentimentos

Era uma vez um homem. Um homem que tinha escritos na testa todos os seus sentimentos. Devia ser difícl ser aquele homem, já que todos pensavam conhecê-lo. Mas quem o conhecia? Nem ele mesmo poderia responder. Nem ele mesmo. Um dia este homem se apaixonou. Mais uma vez estava lá, escrito em sua face, todos os seus verdadeiros sentimentos. Mas a muher não o amou, e ele demorou a perceber. Ao contrário dele, a mulher não demonstrava o que sentia. Ele não soube ler o que ela era. Ela o desprezou. Ele sofreu. Descobriu que algumas pessoas gostam de ser maltratadas. Gostam que as pisem, que as desprezem. A dor foi tanta que ele decidiu apagar tudo o que havia de estampado em sua testa. Se tornou um homem mais frio e misterioso. Hoje o homem não é mais o mesmo. Ninguém mais consegue ler os seus sentimentos. Ninguém mais o conhece.

Talvez, hoje, ele possa dizer que sabe quem é.

sábado, 9 de abril de 2011

Um homem precisa de inocência para viver.
A minha está sendo roubada, pouco a pouco.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Doente

Certa vez houve um homem. Não me lembro de seu rosto, nem de seu nome. Não sei onde viveu, mas viveu. Um dia, este homem sentiu-se diferente. Nunca experimentara aquela sensação. Suas mãos estavam frias, suadas. Sentia-se triste e feliz, bonito e feio, tudo ao mesmo tempo. Dentro de seu peito, um misto de angústia, dor, saudade, alegria e medo. Sofria ele de algum mal? Decidiu procurar um médico. O homem de roupa branca e testa enrugada o examinou por completo. Não encontrou nada. O homem decidiu, então, ir a um psiquiatra. Se não era mal físico, na certa era psicológico. O homem de terno preto e bloco de anotações ouviu, observou, ponderou e anotou. Mas a nenhuma conclusão chegou. Ainda mais angustiado, o homem se viu sem saída. Sofria de algum mal, mas não sabia qual. Pensou em se matar, em surtar, em cozinhar, em cantar, em se render, roubar, matar. Mas nada ia adiantar. Aquelas sensações todas ainda enchiam o seu peito. Decidiu, então, contar a verdade a ela. A bela jovem que com ele brincara, estudara, crescera. E ao vê-la, o homem descobriu: era ela a causa daquilo tudo. E ele se examinou. Diagnóstico: paixão.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O homem que não sorri

Todos os dias ele acorda tarde. Carrega um peso invisível nas costas que o faz se encurvar diante do novo dia. Todos os dias ele revira na cama, até que tenha coragem de levantar. A maioria das vezes, levanta mesmo sem ânimo. Ele nunca diz "bom dia". Ele nunca tem um bom dia. Todas as manhãs, após enfim se pôr de pé, ele se olha no espelho do banheiro. Algumas vezes força um sorriso. Força tanto que faz seus olhos se fecharem quase que completamente. Ele não sorri. Faz a barba, escova os dentes, lava o rosto, mas não sorri. Queria poder dizer que ele não é uma pessoa normal. Mas ele é. E esse é o problema. Esse é o motivo de todos os seus não-sorrisos e não-bons-dias. Ele não tem alegria, apenas compromissos. Ele não pensa em aproveitar o dia, apenas em trabalho. Ele não tem família ou amigos, mas tem dinheiro. Ele tem muito dinheiro. Não o bastante para comprar um sorriso. Sorrisos não se compram. Sorrisos surgem, assim, como mágica. Mas os sorrisos não surgem pra ele. Os seus dias são frios. Seus meses são cinza. Seus anos são amargos. E ele não sorri. Certa noite ele se deitou. Acordou de madrugada sentindo-se estranho. Foi ao banheiro. Lavou o rosto e se olhou no espelho, como faz todas as manhãs. Foi então que aconteceu. Um sorriso surgiu em seu rosto. Assim, como mágica. E ele sorriu. Sentiu-se vivo. Sentiu-se completo. Voltou a dormir. Não mais acordou.